14 agosto 2007

Estudantes universitários, marionetes dos professores

A experiência foi vivida por mim, portanto esta denúncia que faço aqui é grave e para que ela seja clara eu precisaria escrever um livro sobre o assunto.
Entre 1993 e 1997 eu fui estudante da Universidade Federal de Goiás. Havia saído do curso de Filosofia e fui fazer Letras. No primeiro ano que ali cheguei fui motivada pelas greves dos professores e com espírito puro aderi na defesa destes, pois o que tinham em pauta e passavam aos alunos era: "temos que lutar contra o sucateamento das universidades e contra a privatização".
Neste período, Itamar Franco passava o cargo para Fernando Henrique Cardoso, o país tentava se equilibrar depois do furacão Color e ali no seio universitário eu vi o movimento. Eu participei dos movimentos. Eu vivi a euforia da luta de classe. Eu fui aluna e como aluna eu fui empurrada pra frente e defendi os professores, afinal, coitados, só estavam lutando pelo bem dos alunos pobres do nosso Brasil. Ainda mais porque o ponto que impulcionava os alunos, ponto este debatido nas salas de aula era: "não podemos aceitar a privatização e esta é a intenção do governo".
No segundo ano a greve dos professores se repetiu e eu lá estive participando das passeatas, participando das palestras. Vi a UNE se movimentando muito, em prol dos professores e nos dois primeiros anos eu entrei de cabeça.
Em 1996, eu ainda era aluna da UFG e professora de inglês da pequena escola Estadual Jardim das Aroeiras quando fui convidada a ser diretora da nova e grande escola Estadual Juvenal José Pedroso. Fui empossada e continuei aluna de Letras da UFG.
A greve rotineira dos professores teve seu lugar naquele ano, os professores tiveram seus dois meses de férias grevistas, com todo direito, naturalmente. Eu não sou contra a greve. Se tem que reinvidicar, não tem outra solução. A greve é um direito de classe, seja ela qual for.
Eu, no entanto participava de eventos na cidade, de um lado como aluna da universidade, de outro lado como diretora do Juvenal. Eu representava a escola quando da visita de secretários da educação de outros Estados, Secretários do MEC, etc.

Eu vivi momentos raros, inusitados; como aluna e diretora eu podia sentir a luta da classe dos alunos e da classe dos professores. E foi dentro de um evento direcionado para diretores de escolas do Estado de Goiás que eu vi de frente a verdadeira face do movimento de professores e estudantes universitários brasileiros.
Os diretores de escola do Estado de Goiás foram convidados para recepcionar o secretário do Mec que veio à Goiânia para um encontro com o então governador Maguito Vilela. A sala desta reunião estava lotada com mais de 200 diretores e na mesa dirigente estavam representantes do governo do estado e representantes das univerdiades do Estado.

Posso afirmar que os professors da UFG presentes (não cito nomes para não causar malentendidos) deram sua palavra de elogio ao Mec, de apoio à iniciativa do governo de nos enviar um porta-voz que iria levar à Brasília o agradecimento do Estado, etc, etc e etc.

Depois das palestras da mesa o secretário do Mec fez a sua palestra e foi muito aplaudido porque elogiou o nível de ensino do estado de Goiás e prometeu ajudar em Brasília a melhorar ainda mais o ensino em nosso estado. Logo em seguida foi colocada a palavra à disposição dos diretores que quisessem se manifestar e eu, que não podia perder aquela chance, entrei com a minha humilde pergunta direcionada ao secretário do Mec: "senhor secretário, se as universidades forem privatizadas como ficará o aluno pobre e o ensino que o senhor acaba de elogiar?
A minha pergunta caiu no meio daquela reunião como uma bomba. Todos na mesa riram e o secretário se levantou para me responder, surpreso, olhando para mim como se eu fosse um alienígena recém desembarcado no meio da reunião e disse: "o governo nunca pensou em privatizar nenhuma universidade, de onde a senhora tirou esta idéia?

Resumindo: eu nunca mais voltei na UFG, departamento de Letras, para finalizar meu curso. Eu não nasci para ser marionete, nem por um curso universitário, obrigada.

Hoje, li no Diário da Manhã sobre o movimento que possivelmente terminará em greve na UFG e pesquisando na Web, encontrei um site dos alunos da USP, referente a longos meses de greves destes alunos. A frase que li naquele site levou-me a um passeio no tempo:
Na concepção dos estudantes ocupados, os Decretos do Serra e a Reforma Universitária de Lula são faces da mesma moeda, já que ambas caminham no sentido do sucateamento da universidade, da privatização e da submissão do serviço público às grandes empresas.

Greve para encher o bolso de professores universitários que já ganham o suficiente mas não tanto quanto os dirigentes de Brasília, não é? Todo o ano dois meses de greve e o ensino que se lixe. Os pobres professores primários e secundários, estes é que deveriam fazer greve com todo o direito pois ganham uma miséria.

Segundo o calendário escolar as aulas nas universidades começam em 26 de fevereiro, isto é março, que ninguém vai lá dia 26. Oito de dezembro termina o segundo semestre, isto é, fim de novembro que ninguém estica até dezembro. Tirando as férias de julho, restam 8 meses de aula, menos dois meses de greve dos professores, restam 6 meses de aula, tira-se os feriados, resta nada!
Eu ainda morrerei de raiva de ser brasileira e ver coisas que outros não veem e ver gente se deixando empacoter em cada canto onde ando e aqui quem empacota não é o governo.
Marionetes ! Na base de formação do futuro da nação, formam-se marionetes.
Por Alda Inacio


4 comentários:

ALEX disse...

Queria Alda
Vi um comentário teu em "silêncio culpado" e fiquei atraído para esta visita. O que relatas aqui é importante para que as pessoas não vivam formatadas pelas ideias que o governo, instituições e classes dominantes nos querem impor. Não existe uma única verdade porque há vários ângulos para se analisarem as coisas. Gostei deste espaço. Parabéns

NINHO DE CUCO disse...

És uma mulher forte e lutadora. Uma mulher que não se acomoda e que procura ser justa e solidária. É esta orientação de vida que nos aproxima e que faz com que nos procuremos. E sempre que te visito descubro novas coisas sobre ti e sobre o Brasil que tanto amas. E gosto de todas elas.Porque em todas pões o melhor de ti mesma.

Crítica&denúncia disse...

Alex, não consegui localizar teu Blog, mesmo assim obrigada pela gentileza.....adoro Portugal também, sem conhecer. E Ninho de Cuco, lindo nome de Blog amigo, visito sempre teu cantino sabia?

Michele disse...

noooosssa parabéns pelo blog.
Fantástico teu emprenho, te parabenizo.
Felismente não fui uma marionete (talvez tenha sido e nem sei rs)
tenho um segundo diploma e, embora este seja técnico eu desfruto dos benefícios dos dois.
Vou passar sempre no seu blog e me informar.
Obrigada
Abraços

Que Deus acompanhe você em tudo que fizer. Volte sempre.