15 outubro 2007

UM GRITO DE DESGOSTO CONTRA O RACISMO

Hoje estava eu sentada no bistrot tomando um café e minha atenção foi desviada para uma menina que acompanhava um casal bem à minha frente. Eu apenas sorri para ela e continuei perdida nos meus pensamentos. A garotinha loirinha tinha mais ou menos 5 anos. Ela andava, ia, voltava e de repente uma senhora loira sentou-se numa outra mesa. Sei que ambas não se conheciam e a garotinha começou a conversar com esta senhora imediatamente, com naturalidade.
Neste momento veio-me ao pensamento cenas da vida na Bélgica e uma delas foi a conversa de uma frequentadora do bistrot, mãe de um menino de 4 anos, que vez por outra passa por lá. Um dia eu tentei aproximar-me do menino para dialogar e fui recusada por ele. Foi aí que a mãe explicou-me: ele não gosta de pessoas de cabelos escuros. Quando uma pessoa loira aproxima-se ele se abre de imediato. Lembro que a mãe me disse ainda: as crianças pequenas são assim, tivemos que afastar uma professora morena na escola, pois as crianças a recusavam.

Engoli a seco meu café e outro pensamento veio apoderar-se de mim. Lembrei-me de uma senhora velhinha que eu conduzi à casa certo dia. Íamos pela rua, quando lá na frente, um homem negro vinha em sentido contrário. A velhinha olhou o negro a duzentos metros de distância e disse-me: segura tua bolsa.

Então, nestes momentos de profunda solidão que eu passo nesta cidade, vou as vezes tomar um café no bistrot e vem-me à mente tanta coisa ruim. Como entender que uma criança seja racista? Claro que a criança não é racista. Racistas são os pais e passam esta doença para os filhos na mais tenra idade.

E, com certeza, não é só aqui estes fatos aberrantes da natureza humana; no Brasil existe o racismo. Somos um país de miscigenação prolixa. Eu sou filha de uma mulata com pai branco e saí branca por fora, no entanto sou negra de alma, sou negra de coração, sou negra de sentimentos, paixão....e solidão....e talvez a minha solidão seja de desgosto, sem generalização, por favor ! Eu sei que ainda tem gente no mundo que vale à pena. Eu sei disto.


Por Alda Inacio

13 comentários:

SILÊNCIO CULPADO disse...

Ah grande amiga Alda. Grita contra o racismo que eu grito contigo e gritaremos bem forte. Não posso aceitar que, em pleno século XXI, há quem possa ter posições tão retrógradas. Felizmente Portugal até é bom nesse aspecto. É, segundo dados recentes, o 2ª.país que melhor integra.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Deixa-me ainda acrescentar mais uma coisa: os antropólogos modernos dizem que não há raças. Se houvesse raças, espécies diferentes elas nãos se cruzavam, não davam filhos. O racismo é um absurdo, uma aberração tal como é o considerarem a mulher inferior ao homem.
Por uma sociedade mais justa

7 Pecados Mortais disse...

Racismo não!! Estou junto contigo Alda! Falamos de racismo muitas vezes quando existem pessoas de cor diferente. E o Racismo entre os da mesma cor?? Seria um bom assunto a debater.

Quanto ao teu texto só comento o da criança, pois os outros já não me espantam. Será que a criança já foi educada nesse sentido. Se foi...perdoe-me, estou a ficar mais burro do que pensava. Como é que é possível transmitir isso tão cedo nas crianças? Será como o tema da violência que falamos noutro dia? Será que elas se olhem para si e para os diferentes e se distinguem? Será que a personalidade delas já se revelam? Não sei tudo e espero a sua opinião. Beijos do Paulo.

Silvia Madureira disse...

Essa realidade é triste não é? Mas é bem real. E ela está presente em tudo nas nossas vidas. O racismo se expandiu de tal forma que um coxo é posto de lado, um cego, um homossexual, uma pessoa que veste diferente...cada vez mais por coisas estúpidas as pessoas se afastam umas das outras. E não podemos esquecer porque isso acontece à nossa frente todos os dias. Podemos é fazer com que as crianças próximas de nós não pensem como a maioria...o que é difícil!

um beijo

NINHO DE CUCO disse...

Eu grito contra o racismo e contra a discriminação venha ela de onde vier. Eu grito contra o vento para que ele leve para bem longe a minha voz, para onde há sofrimento e onde é precisa uma palavra amiga. Eu grito por este mundo cruel onde 1800 milhões de seres humanos vivem na morte quando há tanto que sobra a tantos outros. Eu grito contigo, Alda e, por ouvires o meu grito, já me sinto mais forte.

NÓMADA disse...

O racismo não é nada e ao mesmo tempo é tudo. Não é nada porque há seres humanos considerados da mesma raça, que diferem mais uns dos outros que outros considerados de raça diferente. Imagina um grego de cabelo escuro e encaracolado, moreno, junto a um nórdico de cabelo muito louro e liso e olhos muito claros. Agora imagina o mesmo grego junto a uma africano, que pode não ter carapinha e que tenha a tez mais clara. Quem faz mais diferença?
O racismo é um conceito que visa a exploração do homem pelo homem e a defesa das extremas desigualdades como se direitos do berço se tratassem.
Haja Deus

Silvia Madureira disse...

Alda:

Deixa só dizer:

E nós que não defendemos a ideia da maioria das pessoas ou seja nos aproximámos de um coxo (por exemplo) acabámos por ser tão descriminadas quanto eles.
Os racistas não deixam que tenhas uma ideia contrária da deles...acabam por ser egoístas...são racistas até nisso!

Obrigada por seu comentário!

SILÊNCIO CULPADO disse...

Querida Alda
Ao reler este texto verifico uma passagem dolorosa: a velhinha diz para segurares a bolsa quando vê um negro. É triste, mesmo em Portugal que eu acho que não é racista e se for é só relativamente à população cigana, por vezes essas coisas acontecem.
Fiz um post sobre a pobreza em Portugal e no mundo que vou colocar no Notas Soltas. Gostava que o visses. Um abraço

Rui Caetano disse...

Infelizmente, hoje em dia ainda assistimos a exemplos de racismo por esse mundo fora, até penso que existe ainda escravatura igual à dos outros tempos.

antonio disse...

Um dia num país Africano, que travessara um longo período de guerra, recém chegado, caminho por uma rua super atento, pois me haviam alertado para todo o tipo de perigos. Toca uma sineta numa escola ao pé e um bando de miúdos negros, na maior das algazarras, corre na minha direcção. Um autêntico arrastão.

Passaram por mim sem me ver e desapareceram no fim da rua.

Aquele branco meio tonto não lhes despertou qualquer interesse.

Antonieta de Sant´Ana disse...

Sabe Alda, lendo seu texto, só faz nos animar a luta e mpreender mais uma batalha, esta contra o RACISMO que não é apenas de um ou outro país, mas mundial. Tive uma idéia e uma proposta: porque não criamos um blog contra o RACISMO, que além de ser um absurdo, é CRIME CONTRA A HUMANIDADE. É XENOFOBIA e isso tem que ser combatido. Um crime inafiançável aqui no Brasil, mas pouco se tem feito porque as pessoas que assitem tem medo de testemunhar. Não podemos deixar o medo tomar conta das pessoas, toda vez que assisto um ato desse ser cometido eu advirto a criatura: Olha você sabe que é crime e sem fiança o racismo? a pessoa se cala e vai embora de sutilmente. Não me calo diante de nada. Temos que iniciar também uma capanha mundial contra este crime absurdo. O que acha da idéia?
Vamos todos a luta!!!

Um grande abraço

Antonieta de Sant´Ana

Crítica e denúncia disse...

Querida Antonieta, você quer me matar de tanto trabalho? Achei sua idéia muito boa, cria-se blogs todos os dias , mas eu entrei de cabeça num grande trabalho que é a organiação deste Big blog contra a miséria. Eu não teria condições nem de tempo, nem de cabeça no momento para pensar em outro blog. Achei linda sua idéia mas eu sou uma só e peço mil desculpas. Grande beijo, Alda

Lactea Lua disse...

Alda,

Saí do Brasil tem muitos anos, moro na califórnia agora,mas entre Europa e aqui..sofri muita discriminação...e sofro até hoje! Mas aprendi a me manifestar,não ficar calada qdo se me apresenta,às vezes com palavras..às vezes com um sorriso balançando a cabeça....às vezes com ar de indignação...mas me manifesto!é necessario! beijos

Que Deus acompanhe você em tudo que fizer. Volte sempre.